quinta-feira, 17 de julho de 2014

SEU CORPO ESTÁ LIGADO A UM PADRÃO CÓSMICO


O amanhecer provoca mudanças biológicas básicas no corpo humano. À medida que o sol se levanta e nós acordamos, a frequência cardíaca, a pressão arterial e a temperatura corporal aumentam. O fígado, os rins e muitos processos naturais também começam a mudar sua marcha lenta para um ritmo mais acelerado.

Quando a luz do dia diminui e a escuridão desce, estes processos igualmente começam a diminuir, voltando a seus níveis mais baixos enquanto dormimos.

Esses padrões biológicos internos estão intimamente ligados a um padrão cósmico externo: a rotação da Terra em torno do seu eixo uma vez a cada 24 horas.
Este “giro” infinito de luz e trevas e a sincronia correspondente de relógios internos e externos é chamado de ritmos circadianos. Circadiano vem de “cerca diem”, latim para “cerca de um dia”.

Ritmos circadianos e saúde humana
Os ritmos circadianos influenciam quase todos os organismos vivos, de bactérias e algas a insetos e pássaros e, como é cada vez mais compreendido pela ciência, seres humanos.

Os cientistas têm aprendido que esses padrões têm efeitos profundos sobre a saúde humana. “Os ritmos circadianos regulam quase todos os processos biológicos no nosso corpo, especialmente os processos relacionados com hormônios”, explica Yong Zhu, professor da Universidade Yale (EUA).

Zhu estudou as consequências de interromper os ritmos circadianos até as mudanças causadas a nível molecular. Para entender seu trabalho, é necessário se lembrar do fato de que ritmos circadianos são antigos.

Esse padrão foi estabelecido cerca de 3 bilhões de anos atrás, e a vida na Terra evoluiu de acordo com ele. No entanto, muitos aspectos dos ritmos circadianos e suas influências permanecem misteriosas.

Os cientistas compreendem apenas parcialmente como a sincronia dos relógios internos e externos governa coisas como a migração das aves, a hibernação dos ursos e a comunicação de navegação entre abelhas.

Pesquisadores também só compreendem algumas das relações entre os ritmos circadianos e a saúde humana. Distúrbios nesse ritmo, por exemplo, ajudam a explicar fenômenos fisiológicos como jet lag, depressão de inverno (transtorno afetivo sazonal), insônia crônica e a fadiga habitual entre os adolescentes.

Mas só nos últimos anos os pesquisadores voltaram sua atenção para os efeitos na saúde a longo prazo de ritmos circadianos perturbados ou interrompidos.

Cerca de 25 anos atrás, o epidemiologista do câncer da Universidade de Connecticut (EUA) Richard G. Stevens se perguntou por que as taxas de câncer de mama eram tão altas, sobretudo nas sociedades industriais. Ele sugeriu uma possível ligação entre câncer de mama e uma invenção moderna que constantemente perturba os ritmos circadianos: luzes elétricas. Seguindo esta lógica, ele também postulou que trabalhadoras do turno noturno tinham taxas mais altas de câncer do que mulheres trabalhadoras dos turnos diurnos.

“A iluminação da noite é nova na evolução humana. Descobrimos como usar o fogo há muitos anos, e temos velas há cerca de 5.000 anos, mas não costumávamos iluminar a noite inteira. Eletricidade realmente mudou as coisas. Nosso sistema circadiano, que é antigo, está confuso”, argumenta Stevens.

Zhu e Stevens se conheceram em Yale e resolveram reunir seus conhecimentos para testar a teoria de Stevens sobre o câncer e o ritmo circadiano.

“Percebi que os ritmos circadianos provavelmente tem um tremendo impacto sobre a saúde pública, mas as pessoas não estavam prestando atenção suficiente”, disse Zhu.

Vários genes ligados ao ritmo circadiano, às vezes chamados de genes CLOCK, foram identificados em animais no final de 1990. Zhu e Stevens decidiram explorar o que Zhu chama de “hipótese do gene circadiano”. A ideia era procurar evidências de que genética é a questão-chave que liga mutações em genes circadianos relacionados ao risco de câncer de mama.

O primeiro trabalho da dupla apareceu no Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention em 2005. Os pesquisadores identificaram uma mutação estrutural no gene “Period3”, que foi significativamente associada com o câncer de mama.

Eles examinaram também todos os 10 genes circadianos humanos, em particular o gene circadiano chamado CLOCK, responsável pela manutenção do ciclo. Estes resultados forneceram a primeira evidência genética ligando o câncer de mama a genes circadianos. Zhu e seus colegas também descobriram evidências ligando mutações em genes circadianos ao câncer de próstata e ao linfoma não-Hodgkin.

Além disso, os cientistas descobriram que o CLOCK regula muitos outros genes, incluindo alguns associados com a produção de hormônios. Em outras palavras, os ritmos circadianos são profundamente e sistemicamente influentes a nível molecular.

Quando algo deixa o CLOCK fora de sincronia com o ritmo circadiano universal, as consequências para a saúde podem ser graves.
Nesse ponto da pesquisa de Zhu e Stevens, uma série de outros estudos já haviam confirmado a relação entre câncer de mama e ritmo circadiano interrompido. Estudos na Dinamarca, Noruega e Estados Unidos mostraram que mulheres de diferentes ocupações que trabalhavam à noite por longos períodos (enfermeiras, comissárias de bordo e outras) tinham maiores taxas de câncer de mama.


As mulheres que trabalhavam em turnos rotativos irregulares tinham as taxas mais elevadas, provavelmente porque seus ritmos circadianos eram os mais interrompidos. “Levando em conta todos os estudos, o consenso é de que quem tem trabalha à noite tem cerca de 50% mais risco de câncer de mama”, afirma Zhu.

Em um estudo relacionado, Stevens e colegas descobriram que mulheres com deficiência visual tinham um menor risco de câncer de mama, com o menor sendo entre as mulheres cegas. “Elas não percebem a luz à noite”, diz Stevens, “então seu ritmo circadiano é vigoroso”.

Em 2007, a ligação entre o câncer de mama e trabalho noturno já era tão bem aceita que um painel de especialistas reunido pela Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer concluiu que “o trabalho por turnos noturnos, envolvendo rompimento circadiano, é provavelmente cancerígeno para os seres humanos”. As causas biológicas para tanto, porém, permaneciam desconhecidas.

Usando dados de um estudo dinamarquês com trabalhadoras noturnas, Zhu e seus colegas descobriram a ligação molecular que faltava: em mulheres que trabalhavam à noite há pelo menos 10 anos e tinham câncer de mama, o rompimento de seus ritmos circadianos foi detectado ao nível do DNA, em alterações epigenéticas, isto é, alterações genéticas causadas por influências externas.

A natureza exata desse mecanismo biológico, no entanto, ainda não está clara. Esse é o próximo passo da pesquisa de Zhu.
Ele suspeita que a perturbação dos ritmos circadianos causada por trabalho noturno suprime a produção de melatonina. A escuridão provoca a liberação desse hormônio fundamental que, por sua vez, sinaliza para que determinados processos biológicos desacelerem e nos ajuda a dormir.


Algumas pesquisas sugerem que, quando a melatonina é suprimida, os níveis de estrogênio aumentam – e altos níveis de estrogênio são uma causa conhecida de câncer de mama.

Mulheres que trabalham à noite sob luzes brilhantes habitualmente bloqueiam a produção de melatonina e, talvez, aumentem seu risco de câncer de mama. O inverso pode também ser verdadeiro: a melatonina é capaz de suprimir tumores mamários em roedores, por exemplo.

E, se você trabalha à noite e está com medo de ter câncer, pode ficar um pouco mais tranquila. Em todo o mundo, estima-se que 15 a 20% das mulheres trabalham no turno da noite. Zhu aponta que muitas dessas mulheres provavelmente não são suscetíveis aos fatores de risco que ele tem estudado, assim como muitos fumantes não desenvolvem câncer de pulmão.

No entanto, ninguém sabe ainda quanta perturbação dos ritmos circadianos é necessária para causar um dano grave à saúde; Zhu acredita que isso varia de pessoa para pessoa. Ele também espera que no futuro existam testes genéticos que identifiquem as pessoas que são biologicamente mais vulneráveis a perturbações em seus ritmos circadianos.

Além disso, os pesquisadores ainda não conhecem todas as maneiras como os genes circadianos interagem e se combinam com outros fatores de risco. Por exemplo, mulheres na pré-menopausa que realizam determinadas mutações genéticas em um gene circadiano são mais propensas a desenvolver câncer de mama.

Mais problemas do que podemos imaginar. Não só mulheres, mas homens também estão sujeitos a potenciais problemas de saúde que vêm com um ritmo circadiano perturbado.

E esses problemas vão muito além do câncer de mama. O trabalho de Zhu, por exemplo, tem sugerido que os ritmos circadianos desempenham um papel no câncer de próstata. Evidências mais fracas também o ligam ao câncer de ovário e de cólon. Zhu acha que esta lista de tipos de câncer ainda vai crescer, especialmente por conta dos relacionados a hormônios.

Outras pesquisas relacionam ritmos circadianos perturbados com obesidade, diabetes e doenças inflamatórias crônicas. Essa lista também provavelmente se alongará, conforme os cientistas continuam a desvendar os mecanismos dos genes circadianos.

“O reparo do DNA é acionado durante o sono e funciona para corrigir todo o dano genético que ocorre durante o dia”, ressalta Zhu. Células não reparadas têm maior risco de sofrer mutações como alterações cancerosas. Da mesma forma, genes circadianos estão diretamente envolvidos na regulação da divisão celular, e muita da qual ocorre durante a noite, provavelmente porque a luz ultravioleta pode causar mutações e as células são mais suscetíveis a mutações enquanto estão se dividindo. 

Tudo isso significa que as pessoas que trabalham à noite ou têm padrões de sono irregulares (dormem pouco ou mal) podem ser mais vulneráveis ao câncer e outros problemas de saúde.

Os pesquisadores também estão procurando formas de usar os ritmos circadianos para melhorar a saúde. Alguns medicamentos, por exemplo, são mais eficazes se tomados em certos pontos do ciclo circadiano.

Ataques cardíacos e derrames são mais comuns no início da manhã, quando a frequência cardíaca e a pressão arterial aumentam. É por isso que a medicação para pressão arterial deve ser tomada logo ao acordar. Por outro lado, ataques de asma são mais comuns à noite, e a medicação preventiva funciona melhor antes de dormir. 

Estudos preliminares sugerem que algumas quimioterapias são significativamente mais eficazes e provocam menos efeitos colaterais quando administradas na altura ótima do dia.

Embora muito do que sabemos hoje ainda seja largamente baseado em experimentos não replicados e especulação, o problema em si é bem identificado e merece atenção. Nos EUA, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças publicou um alerta sobre os riscos de saúde associados com motoristas e trabalhadores dos turnos noturnos e pessoas que não descansam o suficiente por causa de distúrbios do sono ou estilo de vida. Essas pessoas são menos atentas, mais lentas para reagir e mais propensas a tomar más decisões por consequência de ignorar seus ritmos circadianos.

“Todas as espécies na Terra evoluíram e se adaptaram a este ciclo”, diz Zhu. “Quaisquer alterações impactarão, sem dúvida, nossos corpos”.

MedicalXpress

MASSA CINZENTA CEREBRAL FOTOGRAFADA EM CORES

O cérebro, sempre apelidado carinhosamente de massa cinzenta, nunca havia aparecido tão colorido. [Imagem: Harvard University]
Brainbow - uma mistura de brain (cérebro) e rainbow (arco- íris). Foi assim que Jean Livet batizou as incríveis imagens que ele conseguiu produzir das células nervosas do cérebro de um camundongo. Livet é neurocientista na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Massa cinzenta a cores
O cérebro, sempre apelidado carinhosamente de massa cinzenta, nunca havia aparecido tão colorido. Os cientistas conseguiram marcar dezenas de neurônios individuais com tonalidades diferentes, criando um verdadeiro arco-íris cerebral.

Circuitos cerebrais
Os pesquisadores desenvolveram duas estratégias com a técnica Brainbow para a expressão de proteínas fluorescentes. A combinação das estratégias e de cores primárias de proteínas específicas, em camundongos modificados geneticamente, levou à produção de 90 diferentes tons.

A técnica Brainbow permite reconstruções detalhadas dos circuitos cerebrais e representa um importante passo em busca da modelagem de como o sistema nervoso funciona normalmente e em casos de distúrbios cerebrais.

Redação do Site Inovação Tecnológica

LASER VIVO: CÉLULA HUMANA EMITE RAIOS LASER


O laser biológico será útil para a criação de interfaces entre a eletrônica e os organismos biológicos, incluindo as próteses inteligentes, as interfaces neurais e os exoesqueletos. [Imagem: Gather/Yun]

Cientistas criaram um laser vivo, dando a uma célula humana a capacidade para emitir luz laser.

Embora encontrando cada vez mais usos na área da saúde, a emissão dos raios laser sempre esteve associada com materiais inertes, como cristais, espelhos e lentes.

Agora, pela primeira vez, cientistas demonstraram que um organismo biológico é capaz de emitir laser.

Laser vivo
Malte Gather e Seok Hyun Yun, trabalhando juntos no Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, modificaram geneticamente uma célula para que ela expressasse a proteína fluorescente verde, a chamada GFP (Green Fluorescent Protein).

A luz emitida por essa proteína é não-coerente - como a luz de uma lâmpada. Mas os cientistas transformaram-na na base para a geração da luz laser a partir da célula onde ela está implantada.

O isolamento da GFP valeu o Prêmio Nobel de Química de 2008 aos cientistas que trabalharam para que ela se tornasse um instrumento incomparável nas pesquisas biológicas e médicas e uma das principais ferramentas da engenharia genética.

Os dois pesquisadores agora usaram essa proteína para amplificar os fótons, transformando uma única célula em uma fonte de laser, que emite pulsos com duração de alguns nanossegundos cada um.

Os lasers pulsados são importantes em aplicações que vão dos vídeos holográficos à destruição de vírus no sangue, embora ainda não esteja claro se o laser vivo poderá ter utilidade tão ampla
O laser celular foi montado colocando uma única célula em uma microcavidade composta por dois espelhos altamente reflexivos, espaçados por 20 milionésimos de metro. [Imagem: Gather/Yun].

Laser biológico
Os dois pesquisadores montaram um dispositivo composto de um cilindro de 2,5 centímetros de comprimento, com espelhos em cada uma das extremidades, preenchido com uma solução de GFP em água.

Depois de confirmarem de que a solução de GFP é capaz de amplificar uma energia de entrada - um outro laser de luz azul - para produzir seus próprios pulsos de luz laser, os pesquisadores estimaram a concentração de GFP necessária para produzir o efeito laser.

O passo seguinte foi desenvolver uma linhagem de células humanas expressando a GFP nos níveis necessários - os cientistas usaram células embrionárias do rim humano.

O laser celular foi montado colocando uma única célula expressando a GFP - com um diâmetro entre 15 e 20 milionésimos de metro - em uma microcavidade composta por dois espelhos altamente reflexivos, espaçados por 20 milionésimos de metro.

Uma descoberta inesperada foi que o próprio formato circular da célula funcionou como uma lente, focalizando a luz e induzindo a emissão de luz laser em níveis de energia mais baixos do que aqueles do dispositivo inicial baseado na solução de GFP.

Curiosidade de cientista
"Desde que foram desenvolvidos cerca de 50 anos atrás, os lasers têm sido construídos com materiais tais como cristais, corantes e gases purificados como meio de ganho óptico, dentro dos quais pulsos de fótons são amplificados enquanto refletem-se continuamente entre dois espelhos", comenta Yun. "O nosso trabalho é o primeiro relato de um laser biológico baseado em uma única célula viva."

Para seu colega Malte Gather, o grande motivador da pesquisa foi a curiosidade científica de saber se o laser era algo absolutamente artificial ou se essa emissão coerente de luz poderia ser feita no interior de organismos vivos.

A GFP - que é uma proteína encontrada originalmente em algumas espécies de medusa - mostrou-se interessante para a pesquisa porque ela pode ser induzida a emitir luz sem que seja necessário usar enzimas adicionais.
Uma descoberta inesperada foi que o próprio formato circular da célula funcionou como uma lente, diminuindo o nível de energia necessário para emissão do laser. [Imagem: Gather/Yun].

Terapias fotodinâmicas
As células usadas no laser biológico sobreviveram ao processo de produção da luz laser, chegando a produzir centenas de pulsos.

"Embora os pulsos individuais de laser durem apenas alguns nanossegundos, eles são brilhantes o suficiente para serem facilmente detectados, com informações úteis que podem representar formas totalmente novas de analisar as propriedades de um grande número de células de forma quase instantânea", afirma Yun.

A possibilidade de gerar laser a partir de uma fonte totalmente biológica poderá dar um novo impulso às promissoras terapias fotodinâmicas - uma das mais eficientes, por exemplo, para a eliminação do câncer de pele.

Comunicação óptica celular
"Um dos nossos objetivos a longo prazo será encontrar formas de levar as comunicações ópticas e a computação, feitas atualmente com dispositivos eletrônicos inertes, para a esfera da biotecnologia," acrescenta Gather.

Isto poderá ser particularmente útil para a criação de interfaces entre a eletrônica e os organismos biológicos, o que inclui as próteses inteligentes, as interfaces neurais e os exoesqueletos.

O próximo passo da pesquisa será tentar implantar os espelhos dentro da própria célula, criando um laser biológico autocontido e totalmente portável.

Redação do Site Inovação Tecnológica

terça-feira, 15 de julho de 2014

HOMENS E MULHERES TÊM CONEXÕES DIFERENTES NO CÉREBRO

Todos sabem recitar a regra popular sobre a mente de homens e mulheres: enquanto o cérebro masculino é bom para ação motora e visão espacial, o feminino supera em linguagem e sociabilidade. Essa estereotipagem ainda é debatida, mas neurocientistas oferecem agora evidências físicas a favor da teoria.

Um estudo feito na Universidade da Pensilvânia indica que homens têm ênfase maior que mulheres nas conexões entre os neurônios dentro de cada hemisfério cerebral. E mulheres, por sua vez, têm em média mais conectividade entre um hemisfério e outro (veja quadro abaixo).

Segundo artigo dos cientistas na revista "PNAS" , essa diferença coincide com o tipo de funcionalidade cerebral associada às habilidades mais femininas e mais masculinas. O mapeamento de conectividade cerebral feito pelo grupo usou a ressonância magnética por difusão, uma técnica capaz de enxergar mechas finas de axônios, os "cabos" que conectam os núcleos dos neurônios.

Outros estudos já mostravam algumas diferenças que existem entre cérebros de homens e mulheres "mas não explicavam essa complementaridade" de habilidades, afirma o texto do artigo. O trabalho foi liderado pela neurocientista Ragini Verma e assinado por mais nove colegas.

Para chegar à conclusão, os cientistas submeteram 949 pessoas de 8 a 22 anos de idade ao mapeamento por ressonância magnética. A conclusão do estudo, apesar de fraseada de modo diferente, remete ao tipo de divisão de habilidades psicológica incorporado à cultura popular.

"Cérebros masculinos são estruturados para facilitar a conectividade entre ação coordenada e percepção", diz Verma, "enquanto cérebros femininos são projetados para facilitar a comunicação entre os modos de processamento intuitivo e analítico".

NATUREZA E CRIAÇÃO
As diferenças mais acentuadas no novo estudo de mapeamento cerebral, porém, só foram vistas em adultos, afirmam os autores do trabalho. Meninas e meninos não exibiam, em média, a disparidade anatômica que foi vista em homens e mulheres. Isso abre espaço para que a origem das diferenças seja cultural e não de nascimento.


Outras diferenças anatômicas vistas pelo estudo de Verma já eram conhecidas. Uma delas é o fato de mulheres possuírem mais massa cinzenta (parte do cérebro que concentra núcleos de neurônios) do que homens, em relação ao tamanho de seu cérebro. Eles, por sua vez, têm mais massa branca (composta de axônios, os "cabos" que conectam neurônios).

Essa distinção, contudo, não parece ter relação com comportamento. E os estudos cognitivos nos quais Verma encaixa suas descobertas anatômicas, além disso, não parecem ser ainda consenso firme entre pesquisadores.

"A evidência que eu conheço é que, quando existem diferenças quantitativas, elas são mínimas e têm uma influência cultural gigantesca", afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora da UFRJ. "A cultura indica a expectativa, porque o estereótipo é essencialmente incutir expectativas diferentes em meninos e meninas."

Verma, porém, defende a correlação apontada pelo estudo, que usou um mapeamento de última geração em uma amostra de voluntários com tamanho inédito.

Jornal Folha de SP

100 TRILHÕES DE CONEXÕES NO CÉREBRO


Um único neurônio está sobre placa de petri, isolado, mas vibrando, muito satisfeito consigo mesmo. De vez em quando, libera espontaneamente uma onda de corrente elétrica que percorre todo o seu corpo. Ao aplicar pulsos elétricos a uma extremidade do neurônio, ele pode responder com novos pulsos de tensão. Mergulhando o neurônio em vários neurotransmissores, é possível alterar a intensidade e o sincronismo das ondas elétricas. Na placa, isolado, o neurônio não consegue fazer muita coisa. Mas coloque 302 neurônios juntos, e eles se tornam um sistema nervoso capaz de manter vivo o verme Caenorhabditis elegans, sondar o ambiente, tomar decisões e enviar comandos para o corpo do organismo. Junte 100 bilhões de neurônios – com 100 trilhões de conexões – e terá um cérebro humano, capaz de fazer muito, mas muito mais.

Continua um mistério o fato de nosso cérebro se formar a partir de um conjunto de neurônios. A neurociência ainda não tem condições de esclarecer esse enigma, apesar de todas as suas conquistas. Alguns neurocientistas passam a vida toda explorando neurônios isolados. Outros escolhem uma escala mais alta: observam, por exemplo, como o hipocampo – um aglomerado de milhões de neurônios – codifica as lembranças. Outros estudam o cérebro numa escala ainda mais refinada analisando as regiões ativadas em processos como ler ou sentir medo. Mas poucos tentam visualizar o cérebro em todas essas escalas simultaneamente. Em parte, a dificuldade está relacionada à natureza complexa do empreendimento. A interação apenas entre alguns neurônios pode ser um conjunto complexo de feedbacks. Acrescente mais 100 bilhões de neurônios e esse problema se transforma num insolúvel quebra-cabeça.

Alguns cientistas, no entanto, consideram que chegou a hora de enfrentar esse desafio. Eles acreditam que nunca entenderemos de fato como o cérebro se forma a partir do sistema nervoso, mesmo dividindo-o em peças separadas. Observar apenas os pedaços seria o mesmo que tentar descobrir como a água se congela estudando uma única molécula dela. “Gelo” é um termo sem sentido na escala de moléculas individuais. O conceito só existe graças à interação entre um número imenso de moléculas, que se agregam para formar cristais.

Felizmente, os neurocientistas podem se inspirar em outros pesquisadores que estudam diferentes formas da complexidade há décadas – do mercado de ações e circuitos de computadores à interação gênica e proteica em uma única célula. O mercado de ações e uma célula podem não ter muito em comum, pois os pesquisadores descobriram algumas semelhanças intrínsecas em todos os sistemas complexos que estudaram. Ferramentas matemáticas específicas foram desenvolvidas para facilitar a análise desses sistemas. Os neurocientistas estão começando a usar essas ferramentas para tentar entender a complexidade do cérebro. A pesquisa está apenas engatinhando, mas os resultados já são promissores. O importante, segundo os cientistas, é descobrir as regras que bilhões de neurônios obedecem para se organizar em redes, e como elas se unem numa única estrutura coerente que chamamos cérebro. Para eles, a organização dessa rede é fundamental para entendermos um mundo sempre em mudanças. Alguns transtornos mentais mais devastadores, como esquizofrenia e demência, podem resultar do colapso parcial de redes
cerebrais.

Os neurônios formam redes estendendo axônios, que fazem contato com outros neurônios. Quando isso ocorre, um sinal que se propaga por uma célula nervosa pode disparar uma onda de corrente em outros neurônios. Como cada célula pode se unir a milhares de outras – tanto as próximas, como as que se encontram do outro lado do cérebro – as redes neurais podem assumir um incrível número de arranjos. A forma como uma determinada rede se organiza tem enormes implicações no funcionamento do cérebro.
CÉREBRO DE BRINQUEDO
qual a melhor forma de estudar a rede de neurônios do cérebro? Que experimentos os cientistas podem fazer para rastrear bilhões de conexões em rede? Uma alternativa é construir um modelo do cérebro em miniatura, que mostre as diferentes formas de interação entre os neurônios. Olaf Sporns, da Indiana University, e seus colegas criaram exatamente esse modelo. Na simulação, juntaram 1. 600 neurônios e os distribuíram sobre uma superfície esférica, ligando depois cada neurônio aos demais. Em qualquer instante, todos os neurônios têm uma chance mínima de se ativar espontaneamente. Uma vez ativados, têm também uma pequena chance de acionar outros neurônios ligados a eles.

Sporns e sua equipe soldaram as conexões entre os neurônios e observaram o cérebro de brinquedo em ação. Inicialmente conectaram cada neurônio apenas a seus vizinhos imediatos. Com a rede formada, o cérebro produzia pequenos lampejos aleatórios de atividade. Quando um neurônio se ativa espontaneamente, cria uma onda elétrica que desaparece rápido. Quando os pesquisadores ligaram cada neurônio aos demais, no cérebro, o padrão resultante foi bem diferente: o cérebro inteiro foi ativado e desativado em pulsos regulares.

No fim, os cientistas acabaram atribuindo cérebro uma rede intermediária, criando conexões locais e de longa distância entre os neurônios. O cérebro havia se transformado, então, num sistema complexo. Quando os neurônios começaram a se ativar, surgiram grandes padrões brilhantes de atividade que se propagavam pelo cérebro. Alguns deles colidiam entre si e outros se propagavam pelo cérebro em círculos.

O cérebro de brinquedo de Sporns ensinou uma lição importante sobre o aparecimento da complexidade. A própria arquitetura da rede molda seu padrão de atividade. Sporns e outros pesquisadores estão aprendendo as lições que juntaram aos poucos de outros modelos cerebrais e tentando obter padrões similares em cérebros reais como os nossos. Infelizmente, os cientistas não podem monitorar cada neurônio de nosso cérebro. Por isso, usam técnicas inteligentes para registrar a atividade de alguns neurônios e tiram conclusões fantásticas desses resultados.

EM PLACAS DE PETRI
dietmar plenz, neurocientista do instituto nacional de saúde mental dos Estados Unidos, e seus colaboradores tentaram analisar a arquitetura do cérebro estimulando o crescimento de volumes de tecido cerebral do porte de sementes de gergelim em placas de Petri. Eles prenderam 64 eletrodos ao tecido para examinar o acionamento espontâneo dos novos neurônios. Os eletrodos detectaram uma rápida manifestação de atividade conhecida
como avalanches neurais.

De início, parecia que os neurônios estavam apenas espoucando com ruído aleatório. Se isso estava realmente ocorrendo, então haveria a mesma probabilidade de que cada avalanche neural fosse mínima ou de grande alcance. No entanto, não foi isso que Plenz e os colegas descobriram. Avalanches pequenas eram muito frequentes; as grandes, mais raras; e as muito grandes, mais incomuns ainda. Num gráfico, as probabilidades de ocorrência de diferentes tamanhos formavam uma suave curva descendente.
Os cientistas já estavam bem familiarizados com esse tipo de curva. Os batimentos cardíacos, por exemplo, não são todos iguais. A maioria é um pouco mais longa ou mais curta que a média. Um pequeno número de batimentos é muito mais longo ou curto, e um número muito menor é ainda mais longo ou curto que a média. Terremotos seguem o mesmo padrão. O deslocamento das placas continentais produz muitos terremotos fracos, mas poucos muito intensos. Durante epidemias, normalmente novos casos surgem a cada dia, com um surto esporádico de novos casos. Se fizermos um gráfico, os batimentos cardíacos, terremotos e o número de novos casos, eles formarão um curva
exponencial descendente.

Essa curva, conhecida como lei de potências, é a marca registrada de uma rede complexa que engloba conexões de curta e de longa distância. Um tremor em determinado ponto da Terra pode, em alguns casos, espalhar-se somente por uma área restrita. Em casos raros, o abalo se estende por uma região mais ampla.

Os neurônios se comportam da mesma forma. Às vezes ativam apenas seus vizinhos imediatos, mas, em outras podem deflagrar uma onda de atividade que se estende por uma vasta área.

A forma de curva da lei de potência pode fornecer pistas sobre a rede que a produziu. Plenz e seus colaboradores testaram várias redes neurais possíveis para ver quais produziam avalanches neurais como no caso de neurônios reais. O melhor ajuste para a curva foi obtido com uma rede de 60 aglomerados de neurônios. Esses aglomerados estavam conectados, em média, a 10 outros, e as conexões não se espalhavam aleatoriamente entre eles. Poucos aglomerados continham inúmeras conexões, enquanto muitos apresentavam apenas algumas. Como resultado, o número de conexões de um aglomerado com qualquer outro era bastante reduzido. Os cientistas chamam esse tipo de arranjo de redes de pequeno porte.

Verificou-se que esse tipo de rede pode tornar o cérebro absolutamente sensível aos sinais que chegam até ele, da mesma forma como um microfone amplifica uma ampla faixa de sons. Plenz e sua equipe aplicaram descargas elétricas de diferentes intensidades e mediram a resposta neural. Verificaram que descargas fracas estimulam um número limitado de neurônios, e descargas fortes provocam respostas intensas de uma faixa mais ampla de células.

Para entender como a estrutura da rede afeta essa resposta, os pesquisadores adicionaram uma droga aos neurônios que enfraquecia as conexões entre eles, e as células nervosas deixaram de responder aos sinais fracos. Mas, resultados diferentes foram obtidos quando os cientistas injetaram uma droga que tornava os neurônios mais propensos a se ativar em resposta ao contato com seus vizinhos. Nesse caso, os neurônios responderam intensamente aos sinais fracos – tão intensamente que a resposta aos sinais fracos equivalia à dos fortes. Esses experimentos revelaram como as redes neurais podem ser finamente sintonizadas e como essa sintonia fina permite que elas transmitam os sinais com precisão. Se os neurônios fossem organizados numa rede diferente, produziriam respostas incoerentes e sem sentido.
A grande dúvida agora é como relacionar a atividade observada na placa de laboratório com os processos mentais do dia a dia. Observando o cérebro como um todo, os pesquisadores descobriram padrões de atividade espontânea que refletem o mesmo tipo de padrão encontrado por Plenz nos blocos de tecido cerebral. Marcus E. Raichle da Washington University em St. Louis, e seus colaboradores descobriram que as ondas elétricas podem se propagar por todo o cérebro em padrões complexos quando estamos descansando, sem pensar em nada específico. Experimentos recentes sugerem que essa atividade espontânea pode desempenhar papel vital na vida mental. Pode permitir que a mente em repouso afete suas funções internas, revendo lembranças e planejando o futuro.

CARTÓGRAFOS NEURAIS
para entender como essas ondas se comportam, os neurocientistas estão tentando mapear as conexões entre neurônios de todo o cérebro. Considerando o desafio de investigar o que ocorre num minúsculo pedaço de tecido cerebral, esse desafio parece gigantesco. Sporns dirige um dos projetos mais ambiciosos de mapeamento neural. Juntamente com Patric Hagmann, da Universidade de Lausanne, na Suíça, e seu grupo de neuroimagem, ele analisou dados obtidos do cérebro de cinco voluntários, usando um método conhecido como imagem de espectro de difusão, ou DSI (na sigla em inglês). O DSI captura rapidamente imagens de axônios cobertos por uma fina camada de gordura – fibras longas que se conectam a diferentes regiões do córtex, conhecida como matéria branca. Os cientistas selecionaram quase mil regiões do córtex e mapearam conexões da matéria branca de cada uma delas com as demais.

A partir daí criaram uma versão simulada dessas mil regiões e realizaram experimentos para analisar os tipos de padrão produzidos. Cada região gerou sinais que podiam se propagar para as regiões conectadas, fazendo com que neurônios de outras regiões também enviassem sinais semelhantes. Quando esse cérebro virtual foi ativado, começou a produzir ondas de atividade que se desviavam de maneira lenta. Curiosamente, essas ondas se pareciam com as oscilações reais observadas por Raichle em cérebros em repouso.

A rede que Sporns e seus colegas mapearam em todo o cérebro apresenta uma organização muito semelhante àquela menor, que Plenz encontrou em seus pedacinhos de tecido: uma rede de pequeno porte, com poucos centros ou nós bem conectados. Essa arquitetura de grande escala pode ajudar nosso cérebro a economizar recursos e trabalhar mais rápido. Gastamos muitos recursos para desenvolver e manter a matéria branca. Como alguns centros bem conectados, nosso cérebro precisa de muito menos matéria branca do que necessitariam outros tipos de redes. E como são necessárias poucas conexões para ir de uma parte a outra do cérebro, a informação é processada mais rapidamente.
Em um ano, os neurocientistas terão condições de gerar mapas muito mais precisos das redes neurais, graças a um roje to de US$ 30 milhões lançado em 2009 pelo Instituto Nacional da Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês). Conhecido como Human Connectome Project (a exemplo do Human Genome Project), o projeto pretende identificar todas as conexões entre neurônios de um cérebro adulto. Mas mesmo um mapa tão amplo não deverá abrigar a complexidade do cérebro humano, porque os neurônios utilizam somente um subconjunto de conexões cerebrais para se comunicar com outros. De uma hora para outra, essa rede poderá mudar de forma à medida que algumas conexões são desativadas e outras ativadas. Para criar modelos cerebrais, que possam capturar todas essas redes dinâmicas, será preciso lançar mão de todas as artimanhas da interação que a teoria da complexidade pode oferecer.

NEURÔNIOS DE WALL STREET
dois matemáticos do dartmouth college, Daniel N. Rockmore e Scott D. Pauls, estão tentando analisar essa complexidade tratando o cérebro como um mercado de ações. Os dois ambientes consistem em grandes quantidades de pequenas unidades – neurônios e investidores – que estão organizados em uma rede de larga escala. Os investidores podem influenciar os demais na forma de comprar e vender ações; e essa influência pode se espalhar e afetar o mercado todo, fazendo o valor dos títulos subir ou descer. A rede toda, por sua vez, pode influenciar níveis mais baixos. Quando o mercado de ações começa a subir, por exemplo, os investidores isoladamente podem querer entrar numa corrida que faz o mercado subir mais ainda.

Rockmore, Pauls e seus colegas desenvolveram um conjunto de ferramentas matemáticas para descobrir qual o tipo de estrutura da rede da Bolsa de Valores de Nova York. Eles tiveram acesso aos dados do preço de fechamento diário de 2.547 ações durante 1.251 dias e tentaram encontrar semelhanças na variação de preços de diferentes papéis – por exemplo: uma tendência de ascensão e queda praticamente simultânea. Essa pesquisa revelou a existência de 49 aglomerados de ações. Quando os cientistas retomaram os dados financeiros, descobriram que os aglomerados correspondiam principalmente a determinados setores da economia, como software ou restaurantes, ou a determinadas regiões, como América Latina ou Índia.

O fato de terem encontrado essas categorias simplesmente analisando dados tornou os cientistas mais confiantes nos próprios métodos. Afinal de contas, faz sentido que ações de empresas de acesso à internet tendam a subir e cair em cadeia (efeito dominó). Um vírus perigoso poderia pôr em risco o grupo todo.

Rockmore e Pauls também descobriram que esses 49 aglomerados estavam, na verdade, organizados em sete superaglomerados. Em vários casos, esses superaglomerados correspondiam a indústrias que dependem umas das outras. O setor de shoppings lineares e o setor da construção caminham lado a lado. Os pesquisadores também perceberam que esses superaglomerados estavam ligados a um loop gigantesco criado, provavelmente, por uma prática comum entre administradores de investimentos, chamada de rotação setorial.
Ao longo de vários anos esses administradores movimentaram o dinheiro de uma parte da economia para outra. No momento, Rockmore e Pauls estão usando os mesmos métodos matemáticos para construir modelos cerebrais. Em vez de informação financeira se movimentando de uma parte do mercado para outra, eles analisam informações que se deslocam de uma região do cérebro para outra. E da mesma forma que os mercados financeiros têm redes dinâmicas, o cérebro pode reorganizar sua rede de um momento para outro.

Para testar seu modelo, Rockmore e Pauls analisaram, recentemente, imagens de ressonância magnética funcional (fMRI) que Raichle e seus colegas obtiveram do cérebro de uma pessoa em repouso. Eles observaram o aumento e diminuição da atividade de cada voxel – a menor região que uma fMRI pode medir, ou seja, uma porção do cérebro do tamanho de um grão de pimenta. Eles tentaram encontrar relações íntimas entre os padrões. Exatamente como os dois aglomerados no mercado de ações, eles agora descobriram que os voxels podiam ser agrupados em 23 aglomerados. E estes, por sua vez, pertenciam a quatro aglomerados maiores. Curiosamente, esses quatro aglomerados maiores correspondiam a uma versão neurológica da rotação setorial que Rockmore e Pauls encontraram no mercado de ações. Esses aglomerados se mantêm juntos num loop, e ondas de atividade os arrastam
num ciclo.

Como Rockmore e Pauls já são capazes de reconstruir a rede num cérebro em repouso, agora estão interessados em estudar o cérebro em ação, isto é, pensando. Para entender como o cérebro altera sua organização, eles analisaram dados de fMRI de pessoas às quais eram mostrados alguns objetos. Se o modelo funcionar, os pesquisadores poderão predizer que tipo de resultado os neurocientistas obteriam da imagem de ressonância magnética de uma pessoa que recebe um determinado tipo de estímulo, como ver o rosto de um velho amigo. Isso poderia tornar a neurociência uma ciência verdadeiramente profética.

Apesar dos avanços já obtidos, ainda vai demorar até a complexidade do cérebro humano ser completamente decifrada. O verme C. elegans é um bom exemplo disso. Há mais de 20 anos o mapeamento de todas as conexões que interligavam seus 302 neurônios foi concluído, mas até agora os pesquisadores não sabem como essa rede simples dá origem a um sistema nervoso dinâmico.
 

Scientific American Brasil

JEITO NOVO DA NOVA GERAÇÃO

O mercado de Recursos Humanos, os jovens desta reportagem seriam classificados como a chamada "geração Y" - os nascidos na década de 80 até meados dos anos 90. Essa é a primeira geração que não precisou aprender como lidar com equipamentos eletrônicos e em pouco tempo de vida presenciou os maiores avanços na tecnologia. Ao chegar ao mercado de trabalho, esses profissionais foram considerados inovadores e empreendedores. Mas, o que acontece quando eles escolhem ser professores? Se engana quem pensa que, por terem tanta familiaridade com o uso de recursos tecnológicos, eles sejam seus entusiastas. Muito pelo contrário: consideram a tecnologia algo natural, mas não veem sentido em usá-la em sala de aula sem um claro propósito. Na forma de perceber o processo educacional, entretanto, eles promovem uma revolução silenciosa: são abertos ao diálogo, buscam soluções criativas, gostam de realizar pesquisas e inventam jogos e até novas disciplinas em busca de algo muito simples: o prazer de ensinar e a paixão pelo conhecimento.

"A escola tem mudado. Claro que as instituições têm certa permanência - não só a escola, mas a Justiça, a Igreja, etc. Mas esse discurso muito em voga de que a escola não evolui vem desde a década de 20 do século passado e é falso", afirma Paulo Gileno Cysneiros, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que nas últimas três décadas tem se dedicado ao ensino e  pesquisa em tecnologias da informação e comunicação na educação.

Para Paulo, o uso das tecnologias tem o potencial de modificar os modos de pensar, de ensinar e de aprender, e até mesmo de ver o mundo. Mas a verdadeira mudança que vem ocorrendo deve-se sobretudo à capacidade criativa do professor. Ou seja, não é a tecnologia em si que está trazendo as inovações para a sala de aula, mas os jovens professores que entendem como natural o fato de que o conhecimento está disperso, pulverizado no mundo, nas redes sociais, na internet. E assumem sem problemas o papel de guiar e estimular os alunos a encontrarem por eles mesmos o que desejam.
Antropologia urbana
Luís Fernando Massagardi, 31, é de um desses professores que ajudam os alunos a navegar pelo mundo. Mas no caso dele, é pelo mundo real mesmo: ele orienta estudantes do ensino médio a fazerem pesquisas de campo.

Há cinco anos atuando como professor, ele criou uma nova disciplina, que ministra para os alunos do 2º ano do ensino fundamental no colégio particular Ofélia Fonseca, em São Paulo (SP). Chama-se antropologia urbana. "A proposta é fazer uma discussão sobre os grupos sociais da cidade e como eles atuam no espaço urbano", explica. Para "estudar", os alunos precisam deixar os muros da escola e explorar espaços da cidade que pouco conhecem.

Luís Fernando, que é formado em história, diz que a ideia de montar a disciplina tem forte relação com sua experiência pessoal. "Comecei trabalhando em museus e com viagens para estudos de meio. Por isso acredito em práticas educativas que extrapolem a escola como um ambiente fechado, não só no plano de discutir o mundo mas também de estar fisicamente fora",  afirma. 

O professor conta que se sente muito próximo de seus alunos, mas acredita que não seja pela idade, e sim pela sua metodologia. "O diálogo é um ponto fundamental na minha prática. Então, estou sempre aberto para as trocas", diz. Por causa dessas "trocas" que promove com seus estudantes, Luís Fernando se tornou um dos idealizadores do Festival de Artes do colégio, aberto para a comunidade e divulgado pelas redes sociais da internet pelos próprios alunos.
Brincar de ensinar
Uma mudança de comportamento entre os jovens que iniciaram suas carreiras profissionais nos últimos anos é a busca de satisfação pessoal no trabalho. Para eles, dever e prazer devem estar associados. Com os professores, a atitude não é diferente. Em uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA/USP) realizada há três anos com 200 jovens de São Paulo nascidos entre 1980 e 1993, 99% dos entrevistados disseram que só se mantêm envolvidos em atividades de que gostam. Além disso, no levantamento feito por Ana Costa, Miriam Korn e Carlos Honorato, 96% afirmaram que consideram que o objetivo do trabalho é a realização pessoal. Para a pergunta "qual pessoa gostariam de ser?", a resposta "equilibrado entre vida profissional e pessoal" alcançou o primeiro lugar, seguida bem de perto por "fazer o que gosta e dá prazer".

O magistério sempre foi uma opção que envolve boas doses de idealismo e paixão, mas cresce a tendência entre os jovens de incluir no "gostar de ensinar" a ideia de diversão propriamente dita. Brincadeiras, jogos, campeonatos cada vez mais entram no rol de atividades propostas mesmo aos alunos do Fundamental 2 e ensino médio.

Luana Gabriela Marques, 31, inventa de tudo um pouco em suas aulas de português para turmas do 6º ano ao 3º do ensino médio no Colégio Brasil Canadá, em São Paulo (SP). "Faço desafios, campeonatos individuais, entre grupos, jogos de tabuleiro, jogos em que eles formulam as perguntas uns para os outros. Gosto de trabalhar com a criatividade do aluno. No fim do bimestre, dou uns pontinhos a mais na média pelo desempenho nas brincadeiras. Também premio com bombons ou livros", conta a professora.

Mas tanta "recreação" no meio das aulas não significa que os alunos não levem os estudos a sério. "Uso esses recursos em nome do aprendizado. Sou uma professora exigente. E mesmo com esse perfil de brincar, fazer jogos, não tenho problemas em conseguir silêncio, nem com falta de lição de casa", conta Luana.

Montar aulas sempre pensando na diversão dos alunos tem como "efeito colateral" fazer a professora também se divertir - e muito. "Estou sempre criando exercícios novos. Não consigo fazer uma aula que não tenha a ver comigo, que fique chata", conta. Esse comportamento faz com que Luana se aproxime dos alunos e também aprenda com eles - até sobre como se divertir. "Ouço algumas músicas, acompanho certas séries de TV que eles me recomendaram", conta.
Alunos protagonistas
Carolina Silveira Leite, 27, leciona para alunos de 4º ano na rede municipal de São Paulo e faz questão de que eles tenham participação ativa nas aulas. Muito de sua prática pedagógica vem como resultado de sua experiência como aluna. Carolina é formada em letras e acaba de concluir sua segunda graduação, em pedagogia, pela Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). Ao estudar por EaD, ela diz ter aprendido também a importância de o aluno estar motivado e ter um papel ativo na construção do conhecimento. "Não adianta substituir a lousa por um computador. O aluno precisa estar produzindo para se interessar", afirma.

Atualmente, os alunos de sua turma estão montando um blog para publicar as descobertas que fizeram em um projeto sobre insetos.

Foram os alunos que propuseram questões, pesquisaram na biblioteca e na internet, e agora estão escrevendo textos e indicando links para compartilhar o que aprenderam. "Ainda não conseguimos respostas para algumas das dúvidas. Estamos estudando novas estratégias, como enviar perguntas a revistas especializadas", diz Carolina.

Claro que a capacidade de inovar ao trazer o aluno para participar da produção do conhecimento não é uma questão meramente de faixa etária. Mas para um professor com certo passado "tecnológico educacional" é mais fácil entender que na sociedade atual a educação não se limita a escutar aulas expositivas, ler textos escolares e realizar provas. "As tecnologias da internet permitem que o aluno tenha outras opções, como, por exemplo, aprender o que queira, quando queira, no lugar que queira, de uma maneira colaborativa", afirma Lucio França Teles, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB).

Como consequência, diz Lucio, a curiosidade dos alunos acaba aumentando o escopo do currículo, assim como aconteceu com a turma da professora Carolina, pois eles não ficam circunscritos ao que "deve" ser aprendido para serem aprovados. "O acesso a colegas e a informações de várias fontes torna o processo de aprendizagem mais dinâmico e motivante", acredita.
Apoio  na formação
Essa visão ampla e inovadora da educação vale não apenas na hora de ensinar os alunos, mas também quando os próprios professores desejam se manter atualizados. A professora Liliane Rodrigues, 28, da escola bilíngue Cidade Jardim Playpen, São Paulo (SP), também é formada em letras e está fazendo sua segunda graduação, em pedagogia. Mas além de usar as fontes acadêmicas e formais para se aprimorar, ela está constamente aprendendo em espaços informais, como na leitura de blogs de outras professoras.

Embora essa prática não lhe renda nenhum diploma, nascem dela dezenas de ideias e práticas que melhoram seu trabalho docente. "Uma vez li em um blog de uma professora americana sobre um curso on-line de alfabetização multissensorial. Fiquei interessada e conversei com a coordenadora. A escola acabou pagando para eu fazer o curso", conta ela, para quem o apoio da coordenação para crescer profissionalmente é fundamental. "Hoje mudei minha forma de dar aula, aplico muito do que aprendi. Eles investiram em mim, confiaram", comemora.
Empreendedorismo pedagógico
Para Carlos Seabra, consultor de projetos de tecnologia educacional, a prioridade das instituições de ensino deve realmente ser a formação continuada de seus professores. "Entre inúmeros outros fatores, os gestores e coordenadores podem facilitar condições para o que chamo de "empreendedorismo pedagógico" dos professores, ou seja, incentivo à pesquisa e à criatividade, com estímulos e apoios concretos a essas iniciativas", afirma.

Mesmo que seja difícil conseguir verba para formação, especialmente para cursos não oficiais, é possível criar condições para o empreendedorismo pedagógico, já que não se trata simplesmente de dispor de recursos financeiros, mas de estar aberto às iniciativas sugeridas. "O professor inovador, aquele que tenta novos formatos pedagógicos com suporte da tecnologia da comunicação e aprendizagem, tende a buscar instituições educacionais que deem suporte às suas ideias e práticas", afirma Lucio Teles, da UnB.

Confiar no potencial do professor e dar uma carta branca a ele foi o que fez a escola estadual Olinda Conceição Teixeira Bacha, de Campo Grande (MS), para o projeto idealizado por Alexandre Gonçalves Souza, 28 anos. Por seu perfil, era possível perceber que Alexandre era alguém que gostava de experimentar e aceitava desafios. Sem nunca ter estudado informática formalmente - sempre aprendeu "fuçando" - Alexandre tornou-se professor de tecnologia. Foi então que há três anos ele recebeu da direção o desafio de fazer um projeto que melhorasse o aprendizado em português e matemática daquela que era considerada "a pior turma" do colégio, que fica na periferia da capital.

"Era uma sala de 8º ano com os piores desempenhos nas avaliações internas. Eles não se respeitavam e não respeitavam os professores, não tinham vontade de aprender. Era um clima de guerra", lembra o professor. Com uma verba de R$ 20 por mês, obtida com a venda de picolés na escola, Souza montou um agência de publicidade experimental com os alunos. "Assim consegui envolver a professora de artes, de que eles gostavam, e também de português, inglês (para ajudar nos textos) e matemática (para fazer os orçamentos)."

O primeiro trabalho da agência foi desenvolver uma campanha antibullying para a direção da escola. "No começo eles não queriam fazer. Mas ver o resultado espalhado pela escola, compartilhado no Facebook e na página da secretaria de Educação os motivou", conta. Em apenas um semestre, a "turma problema" virou "turma modelo".  No ano seguinte, o projeto ganhou três prêmios: um da Assembleia Legislativa do Estado, outro do Ministério da Educação e o prêmio Professores Inovadores da Microsoft. "Os alunos foram apresentar a agência num seminário estadual de tecnologia e foram aplaudidos por diretores, coordenadores. Eles contaram que nunca imaginaram que isso pudesse acontecer", relata o professor.
Fator desestabilizante
Mas é claro que nem tudo são flores. Conhecida pelo seu individualismo, às vezes essa geração encontra resistências e conflitos no ambiente escolar. Entre as características da nova geração de professores está a busca por respostas e mudanças rápidas. Quando isso não acontece, esses profissionais preferem simplesmente ir embora e procurar outro lugar para dar aulas. Uma professora entrevistada pela reportagem, que prefere não se identificar, conta que com dez anos de magistério já tinha passado por oito escolas. "Existem escolas ainda muito tradicionais. Hoje estou feliz porque encontrei uma em que a coordenação é bem aberta", diz.

E ela não é a única a trocar de empregador por não ficar satisfeita com as relações com os superiores. Fábio Pauli conta que desistiu de certa escola por não concordar com a abordagem do diretor. "Eu tinha um aluno com necessidades especiais e sua orientação era clara e não estava aberta a discussão: o aluno não fazia provas e tirava sempre 7.

Mas como ele iria evoluir assim?", questiona. Felizmente, Pauli conseguiu encontrar uma escola em que a visão da direção estivesse de acordo com a sua.

O professor Leandro de Lima, egresso de escolas públicas, conta que chegou a dar aulas em três escolas da rede pública, mas hoje prefere trabalhar diretamente apenas com estudantes de escolas particulares. "Nosso trabalho era resolver problemas da vida dos alunos, com a família, com drogas, problemas de depredação. Nas reuniões com os coordenadores, não tínhamos tempo para discutir práticas pedagógicas", reclama.

Para Lucio Teles, da UnB, é normal que a nova geração cause um certo nível de "conflito de gerações" dentro das escolas. "Um professor inovador que cultiva  relações mais horizontais e menos autoritárias pode causar um certo temor junto àqueles professores que se posicionam de maneira mais tradicional. A inovação pedagógica na escola é sempre um fator desestabilizante, pois a maioria dos professores infelizmente ainda se apega à noção tradicional de 'transferência de conhecimentos'."

Além do imediatismo, as tendências ao individualismo e uma dose de arrogância entre os mais novos podem provocar atritos dentro das instituições de ensino. O professor da UFPE Paulo Cysneiros lembra, por exemplo, que mesmo um professor que entenda tudo de tecnologia precisa estar aberto para aprender. "Uma coisa é usar a tecnologia no cotidiano, outra é saber usá-la de forma proveitosa na educação. Para isso, primeiro ele vai ter de estudar, ter orientação de seus coordenadores", afirma.

Diretor da escola paulistana São Domingos, Silvio Barini Pinto afirma que na hora de contratar professores, jovens ou não, tenta sempre identificar a capacidade de cooperar e a disposição para aprender com os mais experientes. "Parte dos desafios da educação atual é articular o conhecimento de maneira sistêmica. Professores individualistas não combinam com essa necessidade", avalia.

Por procurar claramente profissionais que gostem de trabalhar em grupo, Silvio garante que nunca teve problemas com os mais jovens. "Algumas vezes já tive candidatos que depois de ouvirem a proposta de educação da escola se disseram não dispostos a trabalhar dessa forma. Por estatística ou por acaso, eram jovens."
Naturalidade tecnológica
Qualquer pessoa que convive desde a infância com diferentes formas de tecnologia tende a desenvolver relações mais naturais com ela, seja na vida pessoal ou profissional. Com o professor não poderia ser diferente. Afinal, a tecnologia é intrínseca à atualidade, e essa geração não costuma considerar que os recursos tecnológicos sejam por si necessariamente positivos ou negativos. Isso não quer dizer que, em sala de aula, a tecnologia deva ser usada de forma acrítica: tudo depende de como usá-las.

"Um professor que é mais conectado tem um potencial para lecionar aulas mais atrativas. Mas pode também ocorrer o contrário: um professor que é mais conectado pode passar a usar a conectividade de uma forma  repetitiva, assumindo que a tecnologia poderá cumprir um papel instrucional", defende Teles. Portanto, a tecnologia deve ser abordada de maneira crítica.

Mesmo os celulares, normalmente tidos como os grandes vilões da dispersão e banidos da maioria das salas de aula, são vistos com mais equilíbrio pelos jovens professores como Leandro de Lima, 26 anos, que leciona química no colégio Albert Sabin, em São Paulo (SP). "Todo mundo nas minhas salas tem um celular com acesso à internet. O que precisamos é pensar esses usos em vez de bater de frente e proibir", afirma o professor que, de certa maneira, é multitarefas. Além de dar aula para turmas regulares, prepara alunos da escola para as olimpíadas de química, participa de um projeto social no qual capacita professores da rede pública para usar tecnologia e ainda atua como consultor de uma editora de livros didáticos.

Para ele, os aparelhos celulares podem proporcionar situações de aprendizado. "Eu falo para os alunos: dentro de sala vai tuitar o quê? Que está na aula de química? Isso é chato, ninguém quer saber. Mas, do lado construtivo, tem aluno que entra no Google para esclarecer uma dúvida, outro que tem um simulador de experiências instalado. E eles todos usam o celular para marcar compromissos, provas, trabalhos; isso funciona muito bem", conta.
Tudo ao mesmo tempo
Para Paulo Gileno Cysneiros, professor da Universidade Federal de Pernambuco, a visão crítica do uso desses recursos na educação é positiva. "Por não terem, de certo modo, uma história, as novas tecnologias provocam de forma geral um efeito emocional receptivo. Em outras vezes elas provocam medo. Por isso mesmo é preciso olhar com cuidado. O professor deve sempre  experimentar e adaptar a máquina à sua realidade."

Há ainda certas habilidades "naturais" para a nova geração de profissionais que caem como uma luva para o perfil desejável de professores. Uma delas, sem dúvida, é a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. "Quando se trabalha com educação infantil numa turma que pode chegar a 20 crianças é preciso ser multitarefa", afirma Daniele Gazzotti, da escola Stance Dual, São Pauo (SP).

"Enquanto você está contando uma história tem sempre alguém pedindo para ir ao banheiro, outro que resolve cutucar o amigo e alguns prestando atenção. E a gente tem de dar conta de atender a todos."
Inspiração  no RPG
Para Fábio Ferreira Pauli, 31 anos, suas experiências pessoais com o RPG (Role-Playing Games) o motivaram a mudar a concepção de suas aulas. "Sou jogador desde os 12 anos. O RPG me ajudou a fazer amizades, me estimulou a ler", conta sobre como percebeu o potencial do jogo para o aprendizado. O RPG é um jogo de interpretação de papéis, como se cada jogador fosse um ator improvisando ações e falas mediante um contexto estabelecido por um orientador. 
Em suas aulas de ciências humanas, que integram história e geografia na Escola Novo Ângulo Novo Esquema - NANE, São Paulo (SP), ele propõe desafios de situações que de fato aconteceram. "Conto para eles, por exemplo, o cenário do bloqueio continental de Napoleão e cada um recebe o seu papel. E pergunto: o que você poderia fazer para derrotar a Inglaterra? E para derrotar Napoleão?Depois trabalho com a solução real, que aconteceu na história", relata.
Dessa forma, os alunos entendem que o estudo de história e geografia pode ajudar a pensar como resolver problemas da vida real. "A gente sempre liga escola com dever, mas aprender é também muito divertido. E eu me divirto com o que faço", afirma Pauli, que ministra oficinas em outras escolas para ensinar a técnica de usar o RPG nas aulas.
I
nspirado em práticas de colégios americanos, o professor também começou recentemente a promover debates entre grupos, sobre diversos temas, colocando uma turma para defender o capitalismo, a outra o comunismo, por exemplo. No fim, os demais alunos votam em quem eles acham que se saiu melhor. "Aqui a gente trabalha com crianças especiais, então tem um olhar voltado para a inclusão. Uma das características importantes é diversificar abordagens; não dá para ficar numa técnica só", afirma.
 
Como é o professor da nova geração
Acredita que o trabalho é realização pessoal, precisa sentir prazer em ensinar
Troca de escola se não se identificar com o projeto pedagógico 
Está aberto ao diálogo com os alunos 
Acredita em práticas educativas que extrapolem o ambiente escolar
Estimula a criatividade dos alunos com brincadeiras, jogos e campeonatos
Aproveita sua experiência pessoal em outras áreas para enriquecer as aulas
Usa as novas tecnologias com parcimônia: apenas quando faz sentido para o conteúdo a ser estudado
 
O Facebook do professor
Pedro Cordeiro, 27, professor de matemática no ensino fundamental do colégio Sidarta, de São Paulo (SP), a tecnologia na educação não pode mais ser considerada uma inovação; ela é um fato. Logo, não é por estar usando o aparelho ou software mais moderno que se está ensinando melhor. "O que eu realmente uso muito é uma ferramenta para trabalhar com a geometria que existe há mais de 15 anos - são softwares de geometria dinâmica (ambientes virtuais em que o aluno pode ver construções geométricas em três dimensões). E até hoje tem professor que não conhece", afirma.
Pedro também aproveita uma tecnologia muito difundida entre a geração dos seus alunos - o Facebook - para se manter em contato com eles. "Uso o Facebook para passar exercícios, vídeos, tirar dúvidas, marcar provas, trabalhos. Tenho um perfil para falar com os alunos, mas separo o grupo de alunos da vida pessoal - eles não conseguem ver meus amigos ou fotos em que sou marcado, por exemplo. E não aceito pais de alunos no Facebook", conta. Mas os pais, se quiserem, podem mandar e-mails.
"É comum os alunos  estarem estudando, tirarem a foto de um exercício e mandarem perguntando se está certo. Na véspera de prova é uma loucura: aquelas janelas de bate-papo ficam pipocando sem parar", relata Pedro, que costuma responder a todos prontamente.
 
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A EXIGENTE [E INSTÁVEL] GERAÇÃO DO MILÊNIO


É cada vez mais difícil contratar e reter talentos. Os profissionais mais jovens estão chegando ao mercado com expectativas exageradas sobre sua carreira, que geralmente não coincidem com as de seus empregadores. São representantes da chamada geração do milênio, também conhecida como geração Y. Uma radiografia extensa desses jovens, nascidos entre 1980 e 2001, acaba de sair nos Estados Unidos sob o título The Troph Kids Grow Up: How the Millennial Generation Is Shaking Up the Workplace (“Os garotos premiados cresceram: como a geração do milênio transforma o ambiente de trabalho”), escrita pelo jornalista americano Ron Alsop, do Wall Street Journal.

Quem são esses jovens? Segundo Alsop, eles cresceram num ambiente superprotetor. Mimados por pais e professores, foram habituados a receber troféus – eis a origem do título do livro – por suas conquistas infantis. Têm uma confiança elevada nas próprias competências e costumam se irritar quando o empregador não partilha dessa avaliação. “Acham que têm condições de se tornar CEO de um dia para o outro”, diz Alsop. Esses jovens começam agora a ocupar as vagas deixadas pelos baby boomers – como são conhecidos os nascidos entre a Segunda Guerra e 1960 –, que estão se aposentando.

Suas expectativas são muito maiores do que as das gerações que os precederam. De acordo com uma pesquisa da CareerBuilder.com, o maior site de emprego dos Estados Unidos, eles querem de imediato salários altos (74%), horários flexíveis (61%), promoção antes de completar um ano na empresa (56%) e um pouco mais de tempo livre e férias (50%).

Exigentes, precisam da atenção constante de seus chefes. Avaliações anuais não são suficientes. Querem saber com freqüência como estão se saindo no trabalho. Ao mesmo tempo, ficam amuados quando recebem críticas. Alsop sugere que sejam repreendidos de forma cuidadosa, sob o risco de que abandonem a empresa. “Gostam de ser estimulados a toda hora, mas nem sempre recebem de forma positiva as sugestões para melhorar seu desempenho”, disse Steve Canale, gerente de recrutamento da General Electric, em entrevista a Alsop.

A hierarquia das empresas também não assusta esses jovens profissionais. “Querem ser tratados como colegas, não como subordinados, e esperam acesso livre a seus chefes, mesmo ao CEO, para defender suas idéias brilhantes”, afirma Alsop.

Apesar das exigências que fazem a suas empresas, os integrantes da geração do milênio não se sentem amarrados a elas. Se o trabalho deixa de ser gratificante, o abandonam sem pensar duas vezes, até porque não os incomoda a idéia de voltar para a casa dos pais, se necessário. Num levantamento realizado pela Michigan State University e pelo site MonsterTrak, dois terços desses jovens afirmaram que, provavelmente, “surfarão” de um emprego para outro durante suas carreiras.

O autor de The Troph Kids Grow Up acredita que as empresas terão de se adaptar, em alguma medida, à geração do milênio para conseguir reter seus talentos. Precisam de suas habilidades tecnológicas, de sua capacidade de trabalhar em equipe e de sua competência para executar vários trabalhos ao mesmo tempo. É fundamental, segundo Alsop, que mostrem claramente as oportunidades à disposição desses jovens, caso permaneçam na empresa.

Revista Epoca Negócios

CRIANÇAS PODERÃO DENUNCIAR ANTE A ONU AS VIOLAÇÕES DE SEUS DIREITOS


GENEBRA, 14 Jan 2014 (AFP) - As crianças cujos direitos foram violados poderão a partir de agora apresentar uma denúncia ante um comitê especializado da ONU, anunciou nesta terça-feira a organização.

O terceiro protocolo facultativo à Convenção da ONU sobre os direitos da crianças, vigente a partir de abril próximo, estabelece um procedimento de comunicação e protege expressamente o direito das criança a recorrer em caso de violação de seus direitos.

Este protocolo, acolhido com satisfação pela Unicef e por outros defensores dos direitos infantis, deveria ser ratificado por ao menos 10 países. A Costa Rica será o décimo a fazê-lo nesta terça-feira, em Nova York.

Em virtude deste texto as crianças poderão apresentar, a título individual ou coletivo, denúncias relacionadas com violações específicas de seus direitos, segundo os termos da Convenção relativa aos direitos da infância, o protocolo sobre as crianças em conflitos armados, sobre a venda de crianças, assim como a prostituição e a pornografia infantis.

O Comitê de Direitos da Infância, composto por 18 especialistas em direitos humanos, poderá atuar para proteger as crianças denunciantes de possíveis represálias, como pedir aos Estados envolvidos que tomem medidas provisórias para proteger a criança ou o grupo de crianças.

No caso de um país ser considerado culpado por violar a Convenção, será obrigado a aplicar as recomendações do comitê.

No entanto, apenas as crianças de países cujos governos ratificaram o protocolo facultativo que estabelece um procedimento de comunicação poderão interpor denúncias ante o Comitê.

Além da Costa Rica, os Estados que ratificaram o terceiro protocolo facultativo ate agora são Albânia, Alemanha, Bolívia, Eslováquia, Espanha, Gabão, Montenegro, Portugal e Tailândia.

CIENTISTAS CONSEGUEM LER A SUA MENTE


A ideia existe em contos de ficção científica há décadas, mas agora está perto de se tornar realidade: pesquisadores da Universidade Nijmegen de Radboug, na Holanda, descobriram uma forma de ler a mente das pessoas. Ou, mais especificamente, como decodificar para quais letras do alfabeto uma pessoa está olhando ao analisar ressonância magnética com um modelo matemático especial criado por eles. Assustador.

A imagem sugere que os pesquisadores encontraram uma forma de determinar letras a partir de uma varredura no cérebro de uma pessoa, mas não é exatamente isso. O que eles fizeram foi quebrar imagens de ressonância magnética do córtex visual de uma pessoa em 1.200 pequenos cubos que aleatoriamente acendiam quando a pessoa olhava para uma letra do alfabeto. Mas não era exatamente aleatório; os segmentos individuais acendiam seguindo o mesmo padrão para determinada letra. E este padrão permitiu aos pesquisadores ensinar o modelo matemático a reconhecer qual letra está sendo visualizada.

O modelo matemático então foi um passo adiante e manipulou os resultados da ressonância magnética para eles parecerem as letras do alfabeto de forma que a gente consiga reconhecer. Pode parecer uma forma de roubar, mas a abordagem é bem parecida com a forma como humanos rapidamente reconhecem coisas baseando-se em memórias de ter visto aquilo antes – um fenômeno conhecido como conhecimento prévio.

E considerando quão bem isso funciona nos humanos, faz sentido que cientistas usem a mesma abordagem enquanto tentam expandir a pesquisa para conseguirem ser capazes de reconstruir um rosto humano, e não apenas algumas letras. 

Radboud Universiteit Nijmegen via Gizmag